Especialista aponta que uso correto de adjuvantes pode aumentar a efetividade das pulverizações, reduzir perdas e evitar retrabalho em um cenário de maior pressão operacional no campo
A safrinha de milho 2026 avança em um ambiente de maior atenção no campo. Embora o cereal siga entre as culturas mais estratégicas do agro brasileiro, a segunda safra entra mais uma vez cercada por desafios que vão do clima à operação, passando pela concentração das atividades após a soja e pela necessidade de maior precisão nas aplicações. Dados da Conab mostram que a produção total do cereal em 2025/26 está estimada em queda de 1,8% frente ao ciclo anterior, enquanto a segunda safra, mesmo com aumento de área, deve recuar 3,5% em produtividade e 1,1% em produção.
Nesse cenário, o manejo de aplicação ganha ainda mais relevância. Para Alexandre Gazoni, engenheiro agrônomo e diretor comercial da Sell Agro, o produtor chega à safrinha carregando reflexos do ciclo anterior, especialmente por causa do atraso das chuvas, do encurtamento das janelas e da pressão crescente de pragas e doenças. Ele avalia que o problema não está apenas no produto utilizado, mas na forma como as decisões estão sendo tomadas dentro da operação.
Segundo ele, o atraso na soja bagunçou o planejamento do milho, elevando custos e colocando áreas fora do período ideal. “Foi um ano complicado por causa do clima. A chuva ficou concentrada, atrapalhou as aplicações e os controles, e isso refletiu no milho desde a escolha da semente e da tecnologia. O produtor comprou material de alto investimento, mas, em muitos casos, acabou colocando a cultura fora do período ideal, o que já pesa no custo desde a arrancada”, afirma o especialista.
A preocupação encontra respaldo técnico. Publicações da Embrapa destacam que a eficiência da pulverização depende de fatores como ponta, pressão, volume de calda, alvo, condições ambientais e qualidade operacional, e que falhas nessa combinação comprometem a deposição do produto, favorecem perdas e reduzem o resultado biológico da operação. A instituição também define os adjuvantes como substâncias adicionadas à formulação ou à calda para aumentar a eficiência do produto ou modificar propriedades da solução, facilitando a aplicação e minimizando problemas.
Para Gazoni, um dos principais erros da safrinha está na tentativa de resolver tudo em poucas entradas, misturando defensivos, fungicidas, inseticidas e nutrição sem considerar a compatibilidade do sistema. “O que mais tenho visto é o produtor tentando colocar tudo em poucas aplicações. Ele compra um produto tecnicamente muito bom, mas depois mistura com outro item que não acompanha essa equivalência técnica. Às vezes, em poucos minutos, ele já perdeu uma parte importante da eficiência por causa da mistura”, diz.
Na prática, isso significa trocar eficácia agronômica por agilidade operacional. Gazoni relata que, em um ambiente de alta pressão por resultado, muitos agricultores passam a aumentar a dose ou reaplicar produtos quando o problema, na verdade, está no preparo da calda, no posicionamento ou na incompatibilidade da mistura. “Muitas vezes ele está sendo eficiente no operacional, porque faz tudo de uma vez, mas não está sendo eficaz na parte técnica. E aí ele gasta mais, pressiona mais a equipe e ainda compromete o resultado da aplicação”, afirma.
O milho safrinha ainda exige uma adaptação específica em relação ao que vinha sendo feito na soja. O diretor explica que a cultura trabalha em um período mais concentrado, com outro perfil de alvo e outra dinâmica de cobertura, o que pede revisão da estratégia de gotas, penetração e comportamento da aplicação. “Às vezes o mesmo operacional que funcionou bem na soja não entrega o mesmo resultado no milho. A cultura muda, a condição também, e até o comportamento da gota pode se alterar”, observa.
Aplicação correta
O uso do adjuvante, nesse contexto, deixa de ser acessório e passa a ter função técnica mais clara. Para o especialista, o erro mais comum é tratar o adjuvante como um produto genérico, capaz de resolver tudo ao mesmo tempo. “O uso dessa tecnologia é essencial, mas ela precisa ser escolhida de acordo com o problema da área. Há situações em que o produtor precisa de um redutor de tensão; em outras, de algo para estabilidade física da calda; e, em alguns casos, de uma solução para conflitos químicos entre moléculas. Não existe um único produto para tudo”, afirma.
Ele cita como exemplo áreas em que o alvo está protegido sob palhada ou em condições que dificultam a exposição da praga ao defensivo. Nesses casos, o adjuvante correto pode ser decisivo para viabilizar o contato e preservar o desempenho esperado do tratamento. “Se a lagarta está embaixo da palhada, não adianta ter o melhor defensivo do mercado se ela não se expõe ao produto. Dependendo da situação, o que falta não é mais dose, e sim um adjuvante adequado para fazer essa praga se mover e permitir que o defensivo atue”, explica.
Além do efeito técnico, o reflexo também aparece na conta. Segundo Gazoni, os trabalhos acompanhados pela empresa têm mostrado ganho médio de 30% a 40% em efetividade nas aplicações quando há orientação correta e escolha adequada do adjuvante, especialmente no controle de pragas e doenças. Em um dos exemplos citados na entrevista, ele relata diferenças expressivas no residual e no número de entradas na área quando o manejo é melhor estruturado.
“Quando a gente fala em adjuvante, não é para deixar o defensivo mais forte, e sim para preservar a eficiência que ele já tem. Se a aplicação se mantém ativa por mais tempo, o produtor evita reaplicações desnecessárias, reduz entradas na área e melhora o resultado técnico e econômico do manejo”, afirma o engenheiro agrônomo. A importância do planejamento também é reforçada pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) para milho 2ª safra 2025/26, que delimita janelas mais seguras conforme a região e o nível de risco, justamente para reduzir a exposição da cultura a perdas ligadas à chuva, geada, temperatura e outras variáveis ambientais. Em outras palavras, na safrinha, timing e execução têm peso ainda maior sobre o resultado final.





